Sala japonesa
A família era sustentada apenas pelo trabalho da mãe, pois os pais tinham se separado. Ela sozinha cuidou de três crianças e sofreu muito para pagar o material escolar deles. Um dos filhos quando cursava o terceiro colegial, já próximo de sua formatura, recebeu uma notícia de seu professor, que lhe disse:

“A sua mensalidade ainda não foi paga esse mês. Caso não tenha pagado até a sua formatura, não será possível se formar. Avise isso ao responsável de sua casa.”

Então, quando ele voltou para sua casa, avisou a mãe sobre a mensalidade atrasada. Ela disse sorridente:

“Entendi meu filho, não se preocupe.”

Isso já havia acontecido algumas vezes e ele entendia que a condição financeira da família não era das melhores. Mas ele sentia um pouco de vergonha desse atraso. De qualquer maneira após tê-la avisado, ele não tocou mais no assunto e os dias foram passando.
Dia primeiro de março, enfim a formatura. Era para ser uma maravilhosa página de sua vida, e realmente isso se tornara numa lembrança inesquecível, mas no outro sentido. A cerimônia começou e dentre aos aplausos dos professores, diretoria e autoridades os formandos entram no ginásio com aquele nervosismo no ar. A cerimônia decorria normalmente de acordo como fora treinado no dia anterior. E ele com o sentimento à flor da pele, esperava com muita expectativa o momento mais esperado da cerimônia, a entrega do diploma de formando.
Chegou a hora! O diretor da escola sobe na tribuna do palco e começa a chamar um por um os nomes dos alunos. Aquele que é chamado responde a presença e se levanta para receber o diploma das mãos do diretor. Havia uns quatrocentos alunos e ele estava no grupo um da terceira chamada.
Muito nervoso ele pensava:

“Vão chamar ele, depois ele e depois o próximo sou eu”.

Estava muito ansioso. Chegou o momento! Havia treinado no dia anterior e, portanto, estava pronto para responder a presença. A boca estava seca. Nervosismo aumentara. Quase se levantara antes da chamada, mas… Seu nome não foi chamado. Os nomes foram passando e nada do nome dele ser chamado. Já começara a chamar a outra classe.
Achou que o diretor tivesse esquecido seu nome. Mesmo assim pensou em se levantar. Pensou em fazer isso várias vezes durante o chamamento. Mas o seu nome não fora chamado, e achou que não deveria se levantar dessa forma. Estava confuso. Olhava para todo lado, tentando encontrar algo. Nada.
E assim todas as classes foram chamadas, mas nada de seu nome ser chamado. Todos já foram chamados, menos ele, que permaneceu o tempo todo apenas sentado. Pensava:

“Por que não chamaram o meu nome?” E ao fazer essa pergunta a si mesmo, lembrou-se daquele fato da mensalidade atrasada avisado pelo professor da escola. “Caso não pague a mensalidade não será possível se formar”.

Lembrando-se disso entendeu o porquê de não ter sido chamado e chegou a uma conclusão. A culpa era da mãe, que não pagara a mensalidade. Toda aquela expectativa e ansiedade se tornara numa desastrosa frustração, dando lugar a uma raiva intensa. A última classe também finalizara sua chamada. E seu nome realmente não fora chamado. Mas depois de alguns instantes, seu nome enfim fora chamado. Pensou em não se levantar. Mas não podia fazer aquilo diante daquela multidão. E com muita vergonha fora até o palco receber seu diploma.
Tudo aquilo pesou muito em seu coração. Era para ser uma formatura inesquecível cheio de emoção para sua vida. Voltando para a classe vira seus colegas compartilhando com muita alegria a formatura. Para ele restou o sentimento de decepção, amargura e tristeza. Nem a conversa do professor pudera ouvir. Pensava:

“Quando voltar para casa vou descontar toda a raiva na mãe!”.

Depois da aula, recusou ir embora com seus colegas e fora direto para casa. Queria voltar logo para casa e soltar todo o sentimento de raiva em sua mãe. E chegando a casa, abriu, não, empurrou a porta contra a parede. Foi logo na cozinha, onde sua mãe poderia estar. A mãe vendo que seu filho voltara lhe disse sorridente:

“Meu filho, parabéns pela formatura. Hoje preparei um prato especial para você.”

Era um arroz vermelho temperado (Arroz típico muito usado em dias especiais no Japão). Mesmo passando por muitos apertos, ela conseguira comprar os ingredientes para preparar esse arroz especial.
“Filho, desculpe, não temos nada de especial para acompanhar o arroz, apenas uma saladinha.” ― dizia ela servindo o prato que havia preparado com muito amor. Até então, ele pensava em descontar toda aquela raiva que manterá durante a formatura. Pensou em até derrubar o prato que ela havia preparado. Mas de repente suas vistas pararam nas mãos de sua mãe, que estava ajeitando o arroz especial na mesa.
Estava cheia de marcar avermelhadas. Neste exato momento todo aquele ressentimento desaparecera como num piscar de olhos. Pensou:

“Mamãe está sempre trabalhando tanto, a ponto de as mãos estarem toda avermelhada e cheio de cortes”.

Se eu desabafar minha raiva aqui, ela se entristecerá muito. Sim, vou esquecer.
Deixarei guardado no fundo do coração. Fazendo isso, não haverá nenhum problema. E tudo aquilo que aconteceu hoje, nunca falarei para ela e nem para ninguém. ― resolveu ele.
A condição financeira continuava difícil, mas de alguma forma ele conseguiu entrar na faculdade e também estava disposto a trabalhar para ajudar um pouco no pagamento das despesas da faculdade. Ele sonhava em um dia ser professor e começou a cultivar esse desejo.
Durante os quatro anos de faculdade, foi muito difícil associar o trabalho e os estudos. Mas mesmo assim, o sonho de se tornar num professor fazia com que o esforço diário tivesse uma iluminação especial.
Logo veio a se formar e o sonho de se tornar professor se concretizou. Era uma alegria enorme ajudar no crescimento das pessoas, vivia satisfeito com seu trabalho. Depois de alguns anos, ele começou a dar aulas para os alunos do terceiro ano do colegial e foi a primeira vez que ele participou de uma despedida de formandos do colegial.
A formatura dos alunos foi muito emocionante. E os alunos que voltaram para a sala de aula estavam conversando alegremente. Na parte dos fundos estavam os familiares que também estavam muito emocionados. E vendo essa relação de pais e filhos, ele relembrou daquele inesquecível dia de sua formatura. E então pensou:

“Sei que a formatura é motivo de alegria. Mas seria somente isso o suficiente? Para que essas crianças estudassem com tranquilidade, houve atrás de tudo isso um esforço profundo dos pais. Não gostaria que essas crianças se formassem sem saber desta realidade”.

Não conteve o sentimento e resolveu tomar uma atitude. Chamar todos os alunos e pronunciar sua experiência. Até os familiares que estavam próximos puderam ouvir o professor. Não somente sua experiência, mas transmitiu aos alunos que os pais se esforçaram o máximo para que seus filhos tivessem a melhor comodidade para estudar com tranquilidade e se formar com alegria.
Todos os alunos ouviram atentamente a conversa, alguns alunos e até familiares se emocionaram com a história. Depois que terminou a conversa todos o aplaudiram. Foi inesquecível. Indo para a sala dos professores, ele sentou-se em sua escrivaninha e começou a fazer uma reflexão sobre aquele pronunciamento.
Neste exato momento o diretor chamou-o em sua sala. Entrando na sala, o diretor lhe disse:

“Em todas as classes os alunos compartilhavam a alegria da formatura. Mas em sua classe vi alunos e até familiares saírem chorando. Houve algo?”

Então ele explicou o ocorrido e também o motivo.
O diretor ouvira atentamente a explicação e depois lhe disse:

“Infelizmente há escolas que são terríveis. Gostei muito em saber que você contou essa sua experiência para os alunos e também para seus familiares. Tenho a certeza que tocaram no coração de todos. Quero também lhe agradecer. Muito obrigado.”

Ele ficou muito feliz com as palavras do diretor. E até então, ele não pretendia contar para sua mãe a realidade que vivera naquela sua formatura. E hoje tendo a coragem de pronunciar para as pessoas aquilo que vivera, decidiu agora contar também para sua mãe e aproveitar a oportunidade para agradecê-la e também pedir perdão.
Chegando a casa, ele começou a contar-lhe sobre o episódio de hoje e também sobre sua experiência na formatura. Mas ela interceptou a conversa e disse para que não comentasse mais nada sobre aquela época, porque não encontraria palavras para se desculpar. Ela pedira com muita educação. Ele apenas queria transmitir a sua mãe aquele sentimento verdadeiro daquele dia de sua formatura, que estava arrependido de ficar com raiva daquela e situação, mas que hoje, graças ao esforço dela, hoje ele está podendo trabalhar e ajudar as pessoas. Estava disposto a pedir mil desculpas por aquele sentimento de raiva.
Mas a mãe não pensava assim e que na verdade sentia culpada por muitas coisas. E vendo isso, ele percebeu o quanto é grande o amor e o carinho que ela tinha com os filhos. Toda e qualquer mãe pensa incessantemente e incondicionalmente no bem estar de seu filho. Foi a primeira vez que ele pôde perceber verdadeiramente o sentimento de uma mãe.
Percebeu também o quanto ainda eram superficiais aquelas palavras pronunciadas aos alunos sobre entender o sentimento dos pais. E que na verdade ele próprio tinha muito que entender sobre isso. Vendo todo esse gesto humilde de sua mãe, pedindo desculpas e derrubando lágrimas, ele também não se conteve e também muito emocionado pediu desculpas. Ambos se desculpavam emocionadamente.