velhice-e-as-nuvens-de-verao
Casei-me com minha esposa há 50 anos. Desde então, estamos sempre juntos praticando a fé em Deus e com muita devoção. E recebendo sempre a permissão de Deus, fazíamos todos os serviços na Kyokai (Comunidade) juntos. O fundador Konko Daijin nos ensinou:

“Um simples papel posto a frente dos olhos, impossibilita saber o que ocorre do outro lado.”

Há dez anos minha esposa sofreu de mal de Alzheimer. No começo sentia algo estranho em seus movimentos. Mas conforme o tempo ia passando, ela já não conseguia lembrar do ano atual, as lembranças antigas também começaram a apagar de sua memória. E algumas perguntas como “Por que eu estou aqui?”, “Quem é você?” começaram a se tornar frequentes e repetitivas.
Sempre fazíamos os serviços da Kyokai (Comunidade). Mas depois que me encontrei diante desta grave situação, percebi pela primeira vez o tamanho e o peso dos serviços domésticos que ela fazia. Limpeza, lavar roupas, cozinhar, preparar a missa, gerenciar os serviços de escritório da Kyokai (Comunidade) e fazer o controle da contabilidade. Tudo aquilo que minha esposa fazia, foi delegado a mim, depois que eu tinha uma idade avançada e comecei a fazer todas essas atividades pela primeira vez.
Minha esposa fazia-me sempre as mesmas perguntas, e por várias vezes lhe explicava, mas logo ela esquecia. E não era só isso, ela começou a querer sair. Ela me dizia: “Já vou sair” e tentava sair sem nenhum destino. Eu como Sensei, fazendo os serviços e também cuidando dela, comecei a não dar conta mais dos serviços.
E como praticante da Konkokyo, sempre pensava em como aceitar essa situação e como fazer dessa situação uma prática. Mesmo havendo compromissos da Kyokai (Comunidade) no dia seguinte, desde a manha até o anoitecer, ela dizia repetidas vezes: “Vou embora” e fazia como se fosse sair de casa. De tanto me envolver nesse problema, o cansaço tomou conta de mim, e passei a gritar e até esbravejar com ela. Mas mesmo esbravejando, mesmo me zangando e mesmo gritando com ela, a situação só se agravava. A gravidade somente aumentava e nenhuma melhora acontecia.
Comecei a achar que na minha própria prática da fé havia algo errado. Quando ficava zangado é porque nada acontecia de acordo como eu queria. “A esposa não faz do jeito que eu quero”, “A situação não caminha do jeito que eu quero”, “Não consigo fazer o serviço do jeito que eu quero”. E assim comecei a perceber qual era o verdadeiro problema.
Há cinquenta anos, às vésperas do casamento recebi a mediação do meu Sensei.

“Estou às vésperas do meu casamento, onde é que devo me concentrar mais?” ― perguntei-lhe.

O Sensei então me respondeu de imediato:

“A sua pergunta já está errada. Saber onde se concentrar e depois controlar do seu modo a vida de sua futura esposa é o que você quer e acha que é bom. E não é assim que se faz.”

E logo depois pegou um quadro em branco e nele escreveu a seguinte frase:

“Não há nada.”

E vendo essa escrita pensei dentro de mim, de que mesmo não tendo nada, vivemos num vasto universo onde Kami existe. Os ensinamentos também existem. E o Sensei percebendo que eu estava meio confuso, me explicou:

“Escrevi aqui que não há nada, mas não significa exatamente isso. É preciso que a cada momento de sua vida nasça uma boa relação por meio da reciprocidade.”

E o Sensei então continuou a escrever naquele papel a seguinte frase:

“Uma boa relação se cria. O marido existe porque a esposa existe. E a esposa existe porque existe o marido.”

Esse ensinamento ficou marcado como o ponto de partida para a nossa vida a dois. Demorei para compreender a fundo o significado real deste ensinamento, mas guardei ele com muito zelo em meu coração e pratiquei-o com dedicação.
Hoje, como Sensei da Konkokyo quando recebo os fiéis que pedem conselhos sobre como planejar casamento ou que visitam com problemas de casal, sempre uso o ensinamento do Sensei como base e com muita devoção a Kami (Deus) realizo as minhas mediações.
Quando recordo-me diante desta atual situação, sinto que o mestre está me pedindo que é exatamente agora o momento oportuno para praticar o ensinamento. Sinto também a forte oração dele pedindo-me para que eu encontre e abra um caminho que ajude diante deste acontecimento.
Mais um fator que me ajudou muito foi um verso que minha esposa escreveu quando ajudava uma instituição dentro da comunidade de bairro. Dizia o seguinte:

“Ficar senil é uma vida como as nuvens de verão.”

Foi um verso que ela se inspirou analisando a sociedade em que vivemos. Muitas pessoas que tinham papel importante na sociedade, ajudando o seu próximo com dedicação, foram excluídas e esquecidas devido a uma doença, como se isso fosse um motivo para se começar a menosprezar e desvalorizar essas pessoas de forma tão arrogante. Somos filhos de Kami (Deus) e devemos nos respeitar com amor, foi com essa inspiração que ela criou esse verso.
Não é olhando somente nossa situação atual, mas sim, de um modo geral, há um desejo profundo de Kami (Deus), para cada um de nós. E a prova disso é a razão pelo qual vivemos e crescemos neste mundo. Relembrando nossas histórias, minha esposa deu à luz a quatro filhos e os criou com muito amor, também ajudava incansavelmente as crianças da comunidade em que morávamos.
Certa vez, ela ajudou um grupo de jovens rebeldes que era a preocupação da cidade. Na ocasião ela havia me dito:

“Mesmo que a cidade inteira me odeie, vou proteger esses garotos.”

Numa outra vez, houve uma criança que desistiu de continuar os estudos devido ao falecimento de sua mãe, minha esposa sem poupar esforços, dedicou-se a essa criança dando muito amor e carinho. E essa mesma pessoa também cuidou de meus pais.
E quando penso o que a minha esposa me mostrou e provou, percebi que ela já fazia parte de minha vida e é graças a ela que hoje estou aqui. Sendo assim, qualquer que seja a perda da memória, proteger o sorriso puro que ela ainda consegue demonstrar com tanta dificuldade, acho que seria isso o meu dever. Ou melhor, seria um dever divino para o crescimento de minha própria fé. É dessa forma que penso a todo momento.